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Pampa, Raça ou Pelagem?

Prof. Sérgio Lima Beck

Para algumas pessoas o que hoje chamamos raça Pampa, não passa de apenas pelagem. De fato, ainda encontramos, vez que outra, este tipo de questionamento. Aproveito o espaço democrático desta revista para colocar este assunto em “branco e preto”. Primeiro precisamos deixar claro o que é a pelagem pampa e depois o que é a raça PAMPA.
O problema já começa das pelagens. Infelizmente a Hipologia ainda não chegou a uma padronização científica nos critérios de definição e enquadramento das pelagens. Os “stud books” das associações de criadores adotam, em certos casos, classificações e denominações distintas para a mesma pelagem. Carecemos de uma sistemática única de pelagens, que sirva para todas as raças. Além disso, tendemos a confundir o conceito de raça no âmbito da Zoologia com o conceito de raça no âmbito da Zootecnia. Por outro lado o saber popular preserva alguns conceitos tradicionais, que têm força de regra para a maioria das pessoas. Isto posto, nesse emaranhado de cores, de raças e de conceitos vamos tentar clarear um pouco o assunto.

Cavalo-pampa

Pelagens conjugadas 

Pelagem ou pelame é o conjunto de pelos que cobrem a quase totalidade do corpo do cavalo. Didaticamente falando, a descrição completa de uma pelagem deve fazer referência à capa, à variedade e as particularidades. A capa corresponde à coloração dos pelos ordinários, executando-se os que ficam nas extremidades dos membros (dos joelhos e jarretes para baixo) e os pelos especiais da crineira e da cauda. A variedade corresponde á tonalidade da capa. As particularidades são manchas brancas ou escuras sobre a pelagem fundamental quando esta, evidentemente, não for da mesma cor. Classicamente a pampa é enquadrada no grupo das pelagens conjugadas ou também chamadas justapostas, grupo este que se caracteriza pela presença de parte(s) branca(s) despigmentada(s) em qualquer outra cor de capa de pelagem. É consenso que o branco das conjugadas deve se situar no pescoço e/ou tronco, ficando fora de consideração para totalmente despigmentada, para se diferenciar do branco tem que ser acompanhado por pele clara despigmentada ou quase totalmente despigmentada, para se diferenciar do branco do tordilho que tem a pele pigmentada e escura. É por isso que podemos encontrar um animal adulto, já com uma certa idade avançada, aparentemente todo branco, isto é, aparentemente de uma só cor e mesmo assim ser classificado como pampa. Embora com todos pelo assumindo a cor branca, parte deles tem pele despigmentada. É o caso de um tordilho pampa ou pampa tordilho.

Capas pampas e pintadas 

Os pelos brancos das pelagens conjugadas ocorrem em formas de malha(s) branca(s) e/ou então em formas de pintas, normalmente pequenas, tendendo ao arredondado, da cor outra que se conjuga com o branco ou da cor branca em conjugação com a capa básica da pelagem. No caso das malhas temos as capas de pelagem ditas pintadas, por vezes chamadas de apalusa para uma das suas variedades, isto é, a mantada e outras vezes chamadas de persa para outra das suas variedades, isto é a leoparda. A pelagem pampa geralmente tem uma conjugação bicolor, mas pode ser tricolor e, mais raramente, quadricolor. A quadricolor pode resultar do acasalamento, por exemplo, de um animal amarilho ou baio com um tobiano tricolor (tobiano de castanho, mas com partes das crismas em preto).

Pelagens do Pampa, do Paint e do Appaloosa 

No Brasil as pelagens de capas pampas ou tobianas e as oveiras são típicas das raças Pampa e Paint, enquanto que as de capas ditas pintadas são típicas da raça Appaloosa. A diferença entre o tobiano e o oveiro é que no primeiro as malhas, geralmente em tamanho grande (no mínimo 10 cm quadrados no caso da raça Pampa), tendem a ter contornos regulares e definidos, enquanto que no segundo as malhas têm contornos bem irregulares, só raríssimamente ultrapassam a linha da coluna vertebral e o rabo é sempre de uma só cor. Vale dizer que a associação Brasileira dos Criadores do Cavalo Pampa, diferentemente da associação do Paint Horse, chama a pelagem de capa tobiana simplesmente de pampa e a pelagem de capa oveira recebe o nome de pampa chita ou chita pampa. No caso da Paint, além do tobiano e do oveiro, quando um animal apresenta uma mistura das duas capas, a denominação fica sendo toveiro. Por sua vez, a Associação Brasileira de Criadores de Cavalos Appaloosa trabalha com a denominação mantado (mancha ou área branca, geralmente única ou contínua, normalmente sobre os quartos ou pelo menos partindo deles, freqüentemente com pintas internas da cor da capa básica); Leopardo (animal todo branco com pintas escuras por todo o corpo); nevado (capa com mistura íntima de pelos brancos com pelos de outra cor, porém com proporções ou intensidades variáveis ao longo do corpo, à semelhança de flocos irregulares de neve caídos aleatoriamente sobre um animal não branco); misturas que representam interpenetrações das já citadas. No saber popular, fora do meio appaloosa não aceita para registro animal com manchas brancas maiores que 14 cm em regiões isoladas do corpo. Isso serve bastante para não conflitar com as raças Paint e Pampa. Todavia nem sempre esta separação entre capas pintadas e capas malhadas é possível ou suficiente para diferenciar a tipicidade de pelagem um Apaloosa da tipicidade de pelagem de um Pampa ou um Paint. Em pelo menos um caso muito específico ocorre considerável semelhança. Senão vejamos. Um Pampa com só uma malha branca e ainda por cima situada na garupa pode ser confundido, em termos de pelagem, com um Appaloosa de manta branca sem pintas internas. Neste caso a identificação sobre a qual raça pertence à pelagem em questão deve se dar por detalhes complementares que acompanham a pelagem apalusa, como pele dos genitais e mucosas parcialmente despigmentadas (malhadas ou marmorizadas), branco da esclerótica do olho mais facilmente visível e, por fim, cascos rajados.
Feitas estas considerações para identificação da pelagem pampa, passemos agora ao reconhecimento da raça Pampa.

Raça Pampa 

A crítica mais comum ao Pampa diz que os animais são muito heterogênicos e, portanto, não podem representar uma raça pura. De fato, a raça Pampa, que ainda tem um de seus livros de registro em aberto, abriga animais de diversas origens, do crioulo ao Campolina, passando inclusive por origens desconhecidas. Mas todos com uma característica comum, qual seja, a pelagem pampa. Só isso já bastaria para rebater essa crítica, mas em termos de conformação temos também um padrão fenotípico ideal e oficial, pelo qual todos os criadores devem se orientar e pelo qual os animais são premiados nos julgamentos de exposição. Com o tempo a padronização vai sendo atingida. A preocupação maior é não se parecer com o tipo “stock horse”. Criado pelos norte americanos e representado pelas raças Quarto de Milha, Appaloosa e Paint, principalmente está última porque tem a mesma pelagem do Pampa. Mas no Pampa as origens admitidas estão longe do tipo “stock horse”. A raça pampa está passando por todos os caminhos, normas e procedimentos que um dia as outras, mais antigas, já passaram. E está passando a passos largos, pois é uma das que mais cresce no Brasil. Já tem data inclusive, bem próxima, para fechamento do livro aberto de machos. A seleção tem um norte, mas parte de diversas vertentes. Aliás, essa diversidade de vertentes é a grande riqueza da raça. Sem variabilidade genética não é possível seleção e quando essa variabilidade é pequena as possibilidades de melhoramento também são. Uma raça com pouca variabilidade genética é uma raça quase estagnada em termos de evolução. E a associação do Pampa, mantendo exigências de qualidade para conformação, altura e andamentos, tomou a corajosa e genial decisão de abrigar em categorias distintas, mas com igual valor, diversas modalidades de andamentos. Assim na Pampa podemos encontrar, sem nenhuma discriminação, animais de marcha picada, de marcha intermediária, de marcha batida, de marcha trotada e de trote. Há andamentos para todos os gostos, cada um em sua (categoria). Nos julgamentos são exigidos e avaliados os andamentos no passo, na marcha ou no trote e no galope. Além disso, para ser campeão o animal adulto tem, obrigatoriamente, que provar ser bom de conformação e de desempenho através de várias provas dinâmicas oficiais. **A última exposição nacional da raça, 2003, contou com perto de seis centenas de animais. O leilão terá atingido média mais alta do que a maioria das outras raças. A associação, fundada em 1993, já possui mais de 1000 (mil) sócios criadores, cujo número aumenta todo mês. Com os trabalhos de fomento, divulgação e seleção promovidos pela associação, o número de animais com a característica pampa tende a se ampliar e as chances de homozigose da pelagem, conseqüentemente, aumentam. No final de 2003 já tínhamos aproximadamente 7000 animais registrados. Tudo isso prova o acerto da criação e da aceitação da raça.

Conceito de raça em Zootecnia moderna 

Como se não bastasse, cabe ainda lembrar aos céticos ou descrentes do Pampa, que o conceito da raça em Zootecnia não é exatamente o mesmo da Zoologia. Em zootecnia o que mais conta é que determinada população animal considerada tenha controle genealógico oficial. Além de pelo menos uma característica fenotípica em comum, característica esta ou estas que sejam transmitidas para os descendentes com considerável herdabilidade. Tudo isso o Pampa já possui. Além do mais, a idéia de raça pura geneticamente falando, na realidade nem existe. Na própria Biologia até a idéia de espécie pura é discutível ou, ás vezes, questionada. Que se dirá então da ideia de raça pura, cujos conceitos e limites são bem mais flexíveis, mais fracos e menos estáticos. Basta ver o que acontece com as próprias raças Paint e Appaloosa. Ambas admitem legalmente cruzamentos com o Puro Sangue Inglês e o quatro de milha. Se o produto destes cruzamentos nascer com a pelagem respectivamente do Paint e do Appaloosa, o registro de puro é concedido normalmente. Entendem eles que esses cruzamentos podem contribuir para o melhoramento das suas raças e já que todos têm controle genealógico oficial conhecido e reconhecido, tudo bem. Semelhantemente ocorre com as raças de Hipismo da Alemanha, que se intercruzam com uma certa freqüência. Quando um cruzamento, planejado e declarado, ocorre entre indivíduos de raças afins ou que têm registro genealógico. Outro exemplo é a raça Anglo-Árabe, que permanentemente se intercruza com o Árabe e o Puro Sangue Inglês. A nossa fértil hipotecnia já consagrou internacionalmente a raça Brasileira de Hipismo (BH), recentemente formada ou ainda em formação, pelos intensos cruzamentos de diversos indivíduos e raças com aptidão comum para os esportes hípicos. No caso da Pampa as regras são até bem mais rígidas e mais restritivas. Portanto não há porque questionar se a Pampa é mesmo raça. Conclusão
Sob a Ótica da moderna Zootecnia o Cavalo Pampa Brasileiro de Sela é uma realidade e uma vitoriosa conquista da nossa Equinocultura. A pelagem pampa sempre existiu e sempre foi um deleite para os nossos olhos, mas agora existe também a raça Pampa, para a alegria e orgulho dos brasileiros. É que viva o colorido do Pampa.
** Dados atualizados para a data atual visto que o texto foi redigido em meados de 2002
*Sérgio Lima Beck é membro do quadro oficial de árbitros da ABCPAMPA, titular do próprio Picadeiro autor de fitas e livros eqüestres, além de professor do Curso Superior de Ciências Eqüinas na PUC – PR. Contatos: tel. (041)3031-1290 e 9953-0317 – e-mail sbeckequinos@yahoo.com.br

Fonte: ABCPampa

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