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A performance começa pela boca

Carla Michel Omura

No mundo inteiro, a odontologia equina está cada vez mais difundida. São freqüentes os seminários e palestras ministrados por veterinários pioneiros, cujo objetivo é alertar sobre a importância da odontologia na saúde e no desempenho atlético dos cavalos.
A odontologia equina moderna visa equilibrar as diferentes partes da boca com o objetivo de restabelecer a função mastigatória plena. A dentição do cavalo moderno é complexa e evoluiu por milhões de anos para permitir a preensão e mastigação efetivas de materiais herbáceos fibrosos. O ser humano domesticou esses animais, mudou seus hábitos alimentares conforme sua própria conveniência e os utiliza para trabalho e lazer. Além do mais, os cavalos de performance, principalmente os PSI e QM, são domados e iniciam a vida atlética muito jovens.
As dificuldades na prática do exame oral associadas ao treinamento deficiente resultam, na maioria das vezes, em diagnóstico, no mínimo, incompleto.
Cavalo-boca

EXAME


O primeiro exame deve ser realizado logo após o nascimento, pois problemas como braquignatismo, prognatismo e fendas palatinas podem ser prontamente observados e tratados de acordo. Em potros de até 5 anos, o ideal é um exame a cada seis meses, pois não é raro encontrar casos de dentes decíduos persistentes, fragmentos que devem ser extraídos, e oclusão anormal causada pela erupção desequilibrada dos dentes. Dificilmente se encontram problemas graves de oclusão em potros novos, mas observam-se formações pontiagudas e deformações nas arcadas dos dentes molares e incisivos, com freqüência, em animais com mais de 6 anos, em diversos graus. Essa observação demonstra que o cuidado precoce é essencial. Em cavalos adultos, o exame deve ser repetido, no mínimo, anualmente.
O exame da cavidade oral é facilmente realizado com o uso de um espéculo, uma lanterna e uma seringa de 400 ml para limpeza da cavidade oral. O exame deve incluir tanto a visualização como a palpação das estruturas da boca, mas a avaliação da oclusão só será precisa com a utilização de sedativos ou tranqüilizantes.
A palpação pode ser realizada começando-se pela direita, deslocando-se a língua para o lado esquerdo da boca com o dorso da mão direita e vice-versa para o outro lado. Pode-se visualizar os dentes com uma lanterna, deslocando-se a língua com a mão ou com o espéculo de apoio lateral, encaixado sobre os molares, deixando livre um lado de cada vez, ou ainda um espéculo do tipo Hausmann, que suporta duas estruturas metálicas encaixadas nos dentes incisivos e, quando aberto, permite a palpação e a visualização de todos os dentes de forma segura para animal e veterinário. O cabresto deve ser bem largo para possibilitar a abertura da boca, e um ajudante é necessário na maioria das vezes. A utilização do espéculo possibilita um exame mais preciso e seguro da cavidade oral. Na maior parte das vezes, a sedação não é necessária para a palpação e visualização.

ANATOMIA DOS DENTES


O cavalo adulto possui até 4 dentes, exceto os puro-sangue lusitano que podem apresentar um molar a mais por arcada (Dr. Easley, comunicação pessoal). Os dentes incisivos são 12. Os pré-molares podem variar de 12 a 16, dependendo da presença ou não dos primeiros pré-molares, os conhecidos “dentes do lobo” que podem chegar a quatro. Normalmente, esses dentes são rostrais aos dentes P superiores. Os molares, em número de 12, são sempre definitivos. Os caninos são, normalmente, quatro, nos machos. As fêmeas podem também apresentar caninos, porém pequenos e mais freqüentemente encontrados na mandíbula, com ou sem caninos maxilares erupcionados.

ESTRUTURA E FUNÇÃO DO DENTE


Os equinos possuem dentes classificados como hipsodontes, o que significa coroa longa. O cavalo possui dentes incisivos e molares com uma raiz relativamente pequena e coroa grande, sendo que apenas parte desta está exposta. A porção interna da coroa é chamada de coroa de reserva. Esses dentes erupcionam durante toda a vida para compensar o desgaste causado pelos alimentos contidos na sua dieta. Note-se que a coroa não cresce continuamente como nos roedores, apenas erupciona constantemente através dos ligamentos periodontais.
As arcadas dentárias maxilares são ligeiramente curvas, ao contrário das mandibulares, que são retas. Isso causa uma sobreposição de dentes caracterizada pela falta de contato entre a superfície oclusal palatal maxilar e as arcadas mandibulares, e da superfície oclusal lingual mandibular e as arcadas superiores, onde são geralmente encontradas as formações pontiagudas de esmalte.

MASTIGAÇÃO


Os dentes incisivos, com as superfícies oclusais planas e mordedura em torques, tem como função a preensão dos alimentos. Os molares, com superfícies irregulares, trituram os alimentos pela excursão lateral da mandíbula, movimento permitido pelas articulações têmporo-mandibulares do cavalo e pela angulação de cerca de 15 graus das arcadas maxilares e mandibulares.
O alimento é empurrado para as partes mais caudais da boca por meio de movimentos da língua e da presença das cristas palatinas, desenhadas para direcionar o alimento para os dentes molares.
Durante o processo da mastigação, o alimento é pressionado entre as arcadas, num movimento vertical. A seguir, a mandíbula movimenta-se lateralmente, o que envolve a face oclusal bucal dos dentes mandibulares movimentando-se medialmente sobre a face oclusal palatal dos dentes maxilares. Os músculos pterigoídeos e massetéricos possuem papel vital na mastigação dos eqüinos.
Os dentes caninos e os dentes do lobo não possuem função efetiva na mastigação.

TRATAMENTOS


Os tratamentos variam muito dependendo do caso clínico, indo desde o grosamento das pontas de esmalte, extrações dentárias até colocação de aparelho móvel (plano horizontal) ou fixo (procedimento cirúrgico com fios de aço, acrílico e placas de metal) para correção da oclusão. Como rotina, o grosamento das pontas de esmalte, o ajuste da oclusão e a extração do P, e de dentes decíduos são os tratamentos mais comuns realizados, não sendo incomum, porém, a observação de fraturas nos dentes, com poucos casos de envolvimento de doença periodontal e abscessos periapicais.
Como os dentes dos eqüinos estão em constante erupção, a manutenção dos tratamentos que envolvem desordens de desgaste e ou erupção deve ser realizada conforme a gravidade da situação, a cada seis meses ou anualmente.
Os exames complementares mais comumente requisitados são os radiológicos e os endoscópicos, principalmente nos casos de sinusites, fraturas severas e disgenesias e agenesias dentárias.

ASPECTOS IMPORTANTES


Há basicamente dois aspectos importantes sobre a prática da odontologia e ortodontia em equinos.

1) Saúde: distúrbios da alimentação podem estar diretamente relacionados com a qualidade dos movimentos mastigatórios. Animais que tem dificuldade em ganhar peso, apresentam desconforto abdominal periódico, diarréia crônica, alimentam-se de forma considerada anormal e necessitam constantemente de suplementos vitamínicos devem ser examinados para, no mínimo, se descartar problemas da cavidade oral.
2) Performance: animais que reagem a embocadura ou não se acertam com nenhuma ou apresentam dificuldade em certas manobras sob comando de rédeas devem ser examinados para, no mínimo, se descartar problemas na cavidade oral.
Na maior parte das vezes, o tratamento é relativamente simples e apresenta resultado imediato, porém há necessidade de material e treinamento veterinário adequados.

ACHADOS MAIS COMUNS

Formações pontiagudas, como pontas de esmalte, bicos ou ganchos (pontas geralmente encontradas nas superfícies oclusais dos dentes P2 e M3).
Lacerações nas bochechas causadas por pontas dentárias.
Má oclusão dos dentes molares, como rampas, degraus e arcadas onduladas.
Má oclusão dos dentes incisivos, como curvatura ventral, dorsal e mordedura em diagonal estão geralmente associadas a má oclusão dos molares.
Dentes do lobo são geralmente extraídos, pois podem interferir com a embocadura.
Cálculos.
Anormalidades na erupção dos dentes, que podem causar posteriores deformidades nas arcadas, falha no deslocamento de dentes decíduos e retenção de fragmentos.
Fraturas.

ACHADOS MENOS COMUNS

Dentes Supranumerários
Anodontia
Braquignatismo
Doença Periodontal
Cáries
Lacerações na língua
Tumores
Desvio de septo congênito Campylorrhinus lateralis (Wry nose)
Disgenesia dentária
Processos degenerativos da ATM

BIBLIOGRAFIA

W.Leon Scrutchfield, Jim Schumacher: Examination of the oral cavity and routime dental care. Veterinary Clinics of North America 9:I, 1993, p123
Gordon J.Baker, Jack Easley Equine Dentistry, London, W. B. Saunders, 1999.
* Formada pela Faculdade Antonio Secundino de São José, em Pinhal (SP) e tem estágios e atividade profissional nos EUA em odontologia eqüina

Fonte: ABCPampa

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